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sexta, 12 de dezembro de 2008 - 11:38

Solteira, 47 anos, mãe de uma criança de 40 dias

A história de Astrid Fontenelle, conhecida apresentadora de televisão, hoje a feliz mãe de Gabriel, ajuda a entender o complexo mundo da adoção de crianças – as dificuldades e os atalhos possíveis na luta para realizar o sonho de ter um bebê. 

Astrid sonhava havia muito anos adotar uma criança, mas só em novembro de 2007 deu entrada, na Vara de Infância e Juventude de Santo Amaro, em São Paulo, ao processo de adoção. Como qualquer candidato, preencheu fichas, tirou atestados de bons antecedentes e enviou fotografias de sua casa, da fachada do prédio onde mora e do interior.

Depois do Carnaval, em fevereiro de 2008, Astrid foi convocada para uma entrevista com uma psicóloga e uma assistente social da Vara de Infância. Passou duas horas e meia com as duas. “Chorei muito na entrevista. Porque era uma coisa que eu queria muito”, conta.

Saiu-se muito bem numa questão fundamental, sempre colocada nas entrevistas de candidatos a adoção: “Você vai contar para a criança que ela é adotada?” Hesitar nesta resposta não é bem visto. Esconder da criança que ela é adotada demonstra preconceito com a situação, avaliam os psicólogos e assistentes sociais.

Astrid recomenda a leitura do livro da atriz Jamie Lee Curtis (famosa por “Um Peixe Chamado Wanda”), intitulado “Conta de Novo”, no qual uma criança pequena revela como conhece bem a sua própria história: “Conta de novo a história da noite em que eu nasci. Conta de novo como vocês me adotaram e viraram meus pais. Conta de novo como foi a primeira vez que você me pegou no colo”, ela pede.

A psicóloga Célia Regina Cardoso, chefe da seção de psicologia da Vara de Infância de Santo Amaro, é mãe de uma menina de 3 anos, adotada. Ela conta que no dia do seu segundo aniversário, a menina perguntou: “Mãe, eu saí da sua barriga?” A psicóloga não respondeu no dia da festa, mas quando a pergunta foi feita novamente, algum tempo depois, ela disse: “Você não saiu da minha barriga, mas você saiu da barriga de uma mãe”.

Astrid, enfim, saiu-se muito bem na entrevista. “Você tem o perfil”, ouviu na Vara da Infância. Estava em fevereiro de 2008 e o próximo passo seria uma entrevista com o juiz Iasin Issa Ahmed. Foi, então, informada que a entrevista estava marcada para o dia 19 de julho. “Foi a minha primeira decepção”.

Ao longo do processo de adoção, em abril, Astrid separou-se de seu marido, Marcelo Checon. A separação foi comunicada à Vara de Infância, por meio de cartas, não só de Marcelo, como também da ex-sogra, recomendando com entusiasmo Astrid ao juiz.

Quando eu estive na Vara de Infância, na primeira semana de dezembro, perguntei ao juiz Iasin e à sua equipe se mulheres solteiras estão habilitadas para adoção e ouvi que não há restrição alguma a esta situação.

Astrid, porém, tinha pressa. Não queria esperar todos os trâmites, o que incluía aguardar cinco meses para uma entrevista com o juiz. “Nessa hora, ser uma pessoa pública ajudou”, conta. Astrid recebeu a sugestão de tentar a adoção em outra cidade – especificamente, Salvador, onde tem muitos amigos. “Em São Paulo, poderia demorar dois anos”, justifica ela. 

Apesar da pressa, a apresentadora não planejava fazer uma “adoção à brasileira”, ou seja, registrar como sua a criança de outra mãe, entregue privadamente. “Já ouvi vários casos de adoção que deram errado, especialmente quando a pessoa que adota é famosa. A mãe que deu a criança volta e começa a fazer exigências”, diz.

Candidatou-se, então, a uma adoção numa Vara da Infância em Salvador. Passou por novas entrevistas, inclusive com o juiz. Aqui, a história de Astrid a distancia da maioria dos mortais: a apresentadora demonstrou que tinha disponibilidade de tempo para ficar numa cidade que não aquela em que vive normalmente, enquanto aguardava a chance de receber uma criança.

Astrid disse que não se importava com a cor do bebê – queria apenas um bebê. O juiz, então, ofereceu um bebê de 40 dias para a apresentadora e determinou um estágio de convivência de 20 dias com a futura mãe, em Salvador. Nesse período, Astrid foi visitada duas vezes, de surpresa, por assistentes sociais e psicólogas. Por fim, foi convocada a uma entrevista na Vara de Infância, junto com o bebê. “Acho que eles querem ver como você está lidando com a criança”, especula.

Concedida a guarda definitiva, Astrid saiu da Vara da Infância direto para um cartório, onde registrou Gabriel Fontenelle de Brito. No dia seguinte, voltou para São Paulo. No seu blog, a apresentadora expressa a alegria deste momento: “GABRIEL é meu filho! Querido, desejado, sonhado e amado!!! Agora sim eu tenho uma família.... que, pra sempre, incondicionalmente, eu vou amar.”

Ao tatuar o nome de seu filho no peito, depois de duas horas de doloroso trabalho, Astrid comentou com Sergio Leds, o tatuador: “Doeu muito, mas eu dizia pra ele que, como não tive a dor de um parto normal, podia ter a minha dose de dor ali, com aquela tatuagem onde pra sempre homenagearei meu filho.”

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